26.12.06

 

Poemas favoritos IV
Favorite poems IV


Epitáfio

Tristan Corbière
(Tradução de Augusto de Campos)

Matou-se de paixão ou morreu de preguiça,
Se vive, é só de vício; e deixa apenas isso:
- Não ser a sua amante foi seu maior suplício. -

Não nasceu por nenhum lado
E foi criado como mudo,
Tornou-se um arlequim guisado,
Mistura adúltera de tudo.

Tinha um não-sei-que, - sem saber onde;
Ouro, - sem trocado para o bonde;
Nervos, - sem nervo; vigor sem "garra";
Alma, - faltava uma guitarra;
Amor, - mas sem bastante fome,
- Muitos nomes para ter um nome. -

Idealista, - sem idéia. Rima
Rica, - sem matéria prima;
De volta, - sem nunca ter ido;
Se achando sempre perdido.

Poeta, apesar do verso;
Artista sem arte, - ao inverso;
Filósofo - vide-verso.

Um sério cômico, - sem sal.
Ator: não soube seu papel;
Pintor: do-ré-mi-fá-sol;
E músico: usava o pincel.

Uma cabeça! - sim, de vento;
Muito louco para ter tento;
Seu mal foi singular de mais.
Seus pés quebrados, pés de mais.

Avis rara - mas de rapina;
Macho... com manha feminina;
Capaz de tudo, - bom pra nada;
Com certeza, - por certo errada.

Pródigo como o filho errante
Do Testamento, - herança vacante.
Rebelde, - e com receio do lugar
Comum não saía do lugar.

Colorista sem cavalete;
Incompreendido... - abriu o peito:
Chorou, cantou em falsete;
- E foi um defeito perfeito.

Não foi alguém, nem foi ninguém.
Seu natural era o ar bem
Pôsto, em pose para a posteridade;
Cínico, na maior ingenuidade;
Impostor, sem cobrar impôsto.
- Seu gôsto estava no desgôsto.

Ninguém foi mais igual, mais gêmeo
Irmão siamês de si mesmo.
Viu-se a si próprio ao microscópio;
Micróbio de seu próprio ópio.
Viajante de rotas perdidas,
S.O.S. sem salva-vidas...

Muito cheio de si para aturar-se,
Cabeça "alta", espírito ativo,
Findou, sem saber findar-se,
ou vivo-morto ou morto-vivo.

Aqui jaz, coração sem côr, desacordado,
Um bem logrado malogrado.
***
Message to the Editor
Patrick Galvin

Sir -
The Lord pardon the people of this town
Because I can't.
When I dropped dead in the street
Three weeks ago
I thought they'd bury me in style.
A state funeral was the least of it
With Heads of Government and the Nobility
In attendance.
I even looked forward to the funeral oration
In Irish
With a few words on my past achievements:
Our greatest poet, a seat in heaven to the man
And how I deserved better.

But did I get it?
My corpse lay in Baggot Street
For a fortnight
Before anyone noticed it.
And when I was finally removed
To the mortuary
I was abused by a medical student
Who couldn't open a bag of chips
Let alone the body of our greatest poet.
Then, to add to the indignity
I was pushed into an ice box
And some clod stuck a label on my foot
Saying: unknown bard - probably foreign.

If it wasn't
For a drunken Corkman
Who thought I was his dead brother
I'd still be lying there unclaimed.
At least
The man had the decency to bury me.
But where am I?
Boxed in some common graveyard
Surrounded by peasants
And people of no background
When I think of the poems I wrote
And the great prophecies I made
I could choke.

I can't write now
Because the coffin is too narrow
And there's no light
I'm trying to send this
Through a medium
But you know what they're like -
Table-tapping bastards
Reeking of ectoplasm.
If you manage to receive this
I'd be grateful if you'd print it.
There's no point in asking you
To send me a copy -
I don't even know my address.

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