24.12.08

 

Cicarelli
Júlio Moreira


Era sexta feira, último dia de trabalho do ano. Logo cedo, o Emilio meu irmão, ligou dizendo que estava deixando minha chave de casa no bar do Ghassan, pois ela tinha ficado com minha mãe e meu pai.
Dei uma rápida passada na inauguração do novo Pronto Socorro da Prefeitura e fui terminar a edição do vídeo do prefeito, que vamos veicular na cerimônia da posse.
No final da tarde, aprovei o vídeo com o prefeito e fui para o hotel arrumar as malas e desmontar o computador. Coisas de último dia de trabalho.
Tatá Cardoso me ofereceu ajuda e no caminho paramos para tomar cerveja. Nisso, a Ariadne ligou dizendo que ia para São José dos Campos e podia me dar uma carona até a rodoviária de lá, coisa que me economizaria um bom tempo.
Fomos para o hotel, arrumei a mala, desmontamos o computador e pegamos a estrada. No caminho caiu a maior chuva que eu já vi numa estrada. Viemos a 60 por hora.
Quando cheguei na rodoviária de São Jôsé, um cara de uns vinte e poucos anos me cumprimentou. Achei a cara dele meio conhecida, ele tem um cabelão black power. Acenei. Comprei a passagem, fiz umas ligações e fui conversar com um trabalhador da empresa de ônibus:
- Que horas o ônibus das 23h30 chega em São Paulo?
- Uma da manhã.
- Mais aí não tem mais metrô?
- É. O último ônibus pra pegar o metrô aberto é o das dez.
Naquele momento passei a pensar que tinha um problema.
Não haveria metrô, eu tinha 10 reais trocados no bolso e os caixas eletrônicos não funcionam à noite. Não teria como pegar um táxi.
Pensei em ligar para a Ariadne. Podia dormir em São José e viajar de manhã. Resolvi seguir. São Paulo é uma cidade camarada e sempre tem os ônibus da madrugada, conhecidos como navio negreiro.
Dentro do ônibus, pensando no meu azar, lembrei que o bar do Ghassam fecha a meia noite. Bom, aí eu tinha dois problemas. Não tinha metrô e não tinha como entrar em casa.
Liguei para o meu irmão e ele não atendeu. Acho que liguei umas 12 vezes.
Cheguei em São Paulo, fui até a o caixa eletrônico e tive a certeza que só contaria com os 10 contos do bolso.
Bem, lá vou eu para o navio...
No elevador da rodoviária, o cara de cabelo black reapareceu. Ele viajava com um companheiro e me perguntou:
- Você vai pra Lapa? A gente está pensado em rachar um táxi.
Perguntei a ele:
- De onde a gente se conhece?
- Você não freqüenta o bar do Ghassam?
- Lógico, a Lapa somos nós. Quanto você acha que custa um táxi daqui até lá?
- Uns 50 reais.
- Então dançou. Fui até o caixa eletrônico e não consegui tirar dinheiro. Só tenho 10 contos.
- É. Vamos de ônibus.
Aí, a gente já estava atravessando a avenida Cruzeiro do Sul.
Olhei para o sinal e vi um táxi parado. Fui falar com o motorista e perguntei o preço da corrida. Ele me disse que custaria uns 40 reais. Propus 30 reais a preço fechado, sem taxímetro e ele topou.
Os caras da Lapa me acharam "o cara".
Bem. chegando na Lapa, ainda passei em frente ao bar do Ghassam, só pra ter a certeza que estava fechado.
Quando cheguei em frente a minha casa vi luz acesa fiquei feliz, pois o Emílio estava em casa. Bingo.
Quem disse que consegui acordar meu irmão? Bati no portão, gritei, chutei o portão, gritei, liguei umas 20 vezes no celular de lê, gritei, estourei a companhia. Acho que acordei todos os vizinhos e meu querido irmão não acordou.
Simples. O cara não acordou.
Me desesperei umas duas vezes. Me acalmei. Comecei tudo de novo e o cara não acordou.
Duas e meia da manhã.
Minha casa fica na rua Espartaco que é uma travessa da Clélia. Lembrei que na Clélia tem uns 3 motéis, daqueles baratos que atendem quem não tem carro. Pequei as malas e fui para o que eu achava o mais baratinho pensando que além do preço baixo, tinha que aceitar cartão.
Quando cheguei na esquina da Clélia com a Aurélia, onde fica o prédio em que funcionava o Olímpia, vi uns trabalhadores trocando uma lâmpada da rua, em cima de uma escada.
Falei para o cara que segurava a escada:
- Meu, uma escada é tudo o que eu preciso nesta noite.
Ele me olhou com cara de espanto.
- Estou sem a chave de casa e preciso de uma escada para subir até a sacada e pular pra dentro de casa.
O cara me olhou de cima a baixo. Viu minha careca, minha barba branca, minha barriga. Riu, meio sem graça.
O outro trabalhador que descia da escada me perguntou:
- Mas não tem ninguém na sua casa?
- Tem. Meu irmão está lá, mas acho que tomou um porre e ninguém consegue acordá-lo.
O cara me mediu de cima em baixo, como o outro já tinha feito, e disse:
- Mas antes eu tenho que terminar o serviço aqui.
Respondi:
- Se você me emprestar a escada, eu não tenho pressa nenhuma.
Ele riu e foi trocar a lâmpada do poste do outro lado da rua. Eles fazem a manutenção de umas lâmpadas iluminam a faixa de pedestre. Faz uns anos que tem isto aqui em São Paulo.
Fiquei vendo o cara subir e achei que a escada era super estreita e que, provavelmente não agüentaria o meu peso.
Achei que eles iam arrumar uma desculpa, falar de segurança, que eu podia ser um ladrão, que a escada era da empresa.
Terminaram o serviço, colocaram a escada em cima do carro e me perguntaram:
- Onde fica a sua casa?
Expliquei que ficava na próxima rua, mas eles tinham que dobrar a esquerda, a primeira a direita e a segunda a direita por que minha rua é contra mão.
Eles riram, entraram no carro e saíram.
Peguei as malas e fui correndo pelo caminho mais curto.
Quando cheguei em frente de casa um deles desceu do carro e tirou a escada.
Vi na cara deles que eles tinham estavam lá porque não acreditaram que eu tinha a manha de subir naquela escadinha e pular pra dentro de casa, naquela altura.
Três horas da manhã e perguntei:
- Será que a escada me agüenta?
- Agüenta. É só você não tremer.
Impressionante quanto os degraus da escada são estreitos.
Fiquei pensando: só falta subir nesta porra, pular a sacada, e a porta estar trancada. Ou, subir nesta escada, pular a
sacada, a porta estar aberta e meu irmão ter esquecido a luz acesa, não estar em casa e não ter chave pra abrir a porta por dentro. Os caras não vão acreditar. Vão pensar que sou ladrão.
Aí, não tinha mais jeito. O trabalhador colou a escada na parede e a sacada se mostrou mais alta do que a gente pensava.
A escada era profissional, daquelas duplas que tem uma traquinagem que você puxa uma corda e a segunda escada sobe, dobrando de tamanho.
O cara repetiu: - É só não tremer.
Subi a escada. No meio, olhei pra cima e fiquei pensando como eu ia fazer pra sair da escada e pular pra sacada.
O cara gritou mais uma vez: - É só não tremer.
Na verdade foi fácil. Quando estava chegando no final da subida percebi que quanto mais eu subisse mais fácil seria
pular pra dentro da sacada. Senti um equilíbrio que nunca tinha imaginado.
A porta não estava trancada. A visão do meu irmão dormindo sentado na cama, de roupa e com sapatos me tranquilizou.
Os trabalhadores comemoravam na rua. Parecia gol. Assobiaram, aplaudiram.
Eu também não acreditava.
Abri a porta, agradeci muito. Comemorei com eles.
Joguei as malas no sofá, tranquei bem as portas, abri a geladeira e o Emílio tinha deixado uma única cerveja.
Achei que merecia aquela cerveja.
Sentei, tomei o primeiro copo e fiquei pensando que sempre tive 50% de azar e 50% de sorte.
Achei que estava num dos meus melhores momentos de sorte e tive o pensamento mais interessante do dia:
Amanhã vou cantar a Cicarelli.

Comments:
Esse texto do Julio Moreira é sensacional! Quem o conhece sabe o qto esse cara faz a diferença seja com eu talento, com sua criatividade, sua amizade e 'insanidade"...
Nota 10 por texto e nota 1000 pro autor!!!
 
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