20.1.10

 

O Fim do Mundo
Sergio Pinheiro Lopes


O mal existe sobre a terra”

O primeiro choque veio em um dia ensolarado. Os relatos variam a respeito da hora exata, mas todos concordam que não havia uma nuvem sequer nos céus.

Esse primeiro choque durou de seis a sete minutos. Cinco minutos de intervalo até o segundo choque. E três minutos mais tarde o terceiro.

Em quinze minutos a cidade estava em ruínas. Quase tudo caiu. O palácio, os tribunais, a alfândega, as lojas. Restaram montes de escombros, alguns com vários andares de altura. O colapso de tantos prédios custou milhares de vidas. Há relatos de que se ouviam os sinos das igrejas tocar antes de cairem no chão com um estardalhaço metálico. Quase que imediatamente começaram os incêndios. Relíquias sagradas, bibliotecas, tapeçarias, mobília, altares, tudo terminou em chamas. Várias prisões ruíram, inclusive a mais notória, e um exército de condenados invadiu a cidade. Mas parecia haver mais criminosos nas ruas do que os que estavam nas prisões. Muitos dos roubos e assaltos podem ter sido motivados pela luta pela sobrevivência.

O governo que, mal e mal, havia, sumiu. Como sumiram também toda autoridade política e toda ordem social. Tudo desintegrado.

Essa é uma pequena descrição do terremoto de Lisboa em primeiro de novembro de 1755. Dia de Todos-Os-Santos. Uma das muitas vezes que o mundo acabou.

As estimativas sobre o total de mortes variam de 15.000 a mais de 75.000. Historiadores modernos tendem a acreditar que o número correto seja provavelmente de cerca de 30.000, o que seria mais de dez por cento da população, o equivalente a quase um milhão de pessoas na Nova York de hoje.

Ao terromoto seguiu-se um tsunami. O rio Tejo recuou até que, segundo alguns, podia-se ver seu leito lamacento e, segundos depois, uma imensa onda de mais de dez metros de altura caiu sobre a cidade.

Um grito generalizado podia ser ouvido: 'O mar está entrando, estamos todos perdidos.'

A maior preocupação do Rei parecia ser se deveria ou não abandonar Lisboa de vez, mudar sua corte para o norte e estabelecê-la em Coimbra.

Dizem que quando Sebastião José de Carvalho e Mello, mais tarde conhecido como Marquês de Pombal, chegou à corte e o Rei lhe perguntou em desespero: 'O que fazer para enfrentar essa aflição, esse decreto de justiça divina?', Sebastião respondeu: 'Enterrar os mortos e alimentar os vivos.'

Em 1755 o Marques de Pombal tomou conta da situação. Sua primeira medida foi fechar as saídas da cidade para impedir que refugiados fugissem para o interior. Para impedir a fuga das coisas saqueadas e para manter a força de trabalho na cidade. A seguir ergueu quatro forcas no centro da cidade, qualquer um pego roubando ou saqueando era executado imediatamente. Enforcou trinta e quatro. Com a autoridade restabelecida, tratou de fazer o que dissera ao Rei ser necessário. Fez um acordo com a igreja que permitiu que os corpos fossem jogados ao mar. Para alimentar os vivos abriu celeiros e mercados de carne pela cidade, estabeleceu distribuição de sopa para a população em diversos lugares. Decretou que qualquer pessoa sem ocupação fosse colocada para trabalhar na remoção dos escombros e na reconstrução. Estufas e fornos para cozer tijolos foram construídos. Suprimentos de madeira foram expropriados. Carroças também. Houve ajuda externa: dos espanhóis, dos inglêses e até da cidade de Hamburgo. Assim começou a reconstrução.

A República Dominicana e o Haiti partilham a ilha de La Hispaniola. Dois terços são ocupados pelo primeiro país e um terço pelo segundo.

Os dois países tem uma longa história de conflito.

A República Dominicana não parece ter um futuro brilhante. Os últimos governos foram corruptos, interessados apenas em ajudar os próprios políticos e seus amigos. A economia enfrentou muitos choques. Entre eles o colapso da indústria do açúcar, a competição crescente de outros países com mão de obra mais barata, a falência dos dois bancos mais importantes e o governo tomando emprestado e gastando mais do que pode. Na opinião de alguns dominicanos mais pessimistas, o país caminha em direção a tornar-se um outro Haiti. Mas mais rápido do que o próprio Haiti. Pelo menos assim achavam até terça-feira, 12 de janeiro de 2010.

E o Haiti?

O Haiti não tem, e já não tinha mesmo antes do terremoto, sequer a capacidade de utilizar assistência externa de modo eficiente.

Mais de um milhão de pessoas de ascendência haitiana vivem e trabalham na República Dominicana, a maior parte ilegalmente. Eles são cerca de 12% da população. Compensam um exôdo equivalente de dominicanos para fora do país. Os haitianos trabalham em funções que os dominicanos não querem exercer. Na construção civil, na agricultura, no corte da cana de açúcar, na indústria do turismo; como seguranças, como domésticos e como entregadores. Não tem direito a educação, a serviços médicos ou a planos habitacionais. Os nativos da terra e os emigrantes divergem culturalmente também: falam línguas diferentes, vestem-se de modo diferente, comem comidas diferentes e tem aparência diversa de modo geral. Os haitianos são mais escuros e são tratados pelos dominicanos como se fossem africanos e inferiores.

A República Dominicana é mais afetada pelo Haiti do que por qualquer outro país do mundo.

Os haitianos não esquecem o massacre ordenado por Trujillo: mais de 20.000 haitianos foram mortos a golpes de machete em 1937. Os dominicanos não esquecem os vinte e dois anos de ocupação haitiana no século dezenove.

No entanto, sem colaboração entre os dois países, depois que o terremoto sair das manchetes, não haverá futuro algum. Para nenhum dos dois países.

E ainda não há um Marques de Pombal por lá.


Bibliografia:

The End of the World – A History, de Otto Friedrich.

Fromm International Publishing Corporation.

1982.

Collapse – How Societies Choose to Fail or to Survive, de Jared Diamond.

Penguin Books.

2005.

Título e citação inicial de Otto Friedrich.


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