6.2.10

 

O Sapateiro
Sergio Pinheiro Lopes


Andei enfrentando alguns obstáculos na vida recentemente.

Durante essa mesma época, algumas tantas pessoas estiveram em minha casa.

Algumas eu conhecia, outras não.

Algumas foram mais assíduas, outras menos.

Em comum, com honrosas exceções, comportamentos indo da má educação ao franco desrespeito.

Chamaram-me de opinativo. E sou.

Chamaram-me de caga-regras. E sou.

Mas vamos e venhamos, durante a vida li uns tantos livros em umas tantas línguas, sobre variados assuntos.

Aprendi uma coisa ou outra com eles, decerto.

Também trabalhei mais de quarenta anos em umas duas profissões que aprendi na marra, pois não tive educação formal, quem me indicasse e nem nelas treino prévio. Alguns anos foram muito duros, com jornadas longas, muitos sapos engolidos, com o aprender a gostar daquilo que, fosse me dada a escolha, não gostaria.

Faz-se o que se tem de fazer, e acabou-se. Achava e acho.

Com elas paguei minhas contas e, junto com minha mulher, criei família.

Outras tantas experiências foram acumuladas nestas lides.

Já tive sucesso e já fracassei.

Já tive bons amigos e sortes na vida, mas também já fui roubado, enganado e traído por pessoas em quem confiava.

Enterrei meu primeiro filho, enterrei meu pai, enterrei uns tantos amigos também.

Tive câncer na adolescência inteira e superei.

Desenvolvi diabetes aos quarenta e tantos e enfrento suas limitações todos os dias.

Tenho uma das vistas quase nula. Escuto mal de um ouvido.

Senti como se nada disso contasse por ter me ensinado algo.

Para esses poucos que me frequentaram, quase nunca tive razão, aliás, razão não tive jamais, às vezes, o que aconteceu, é que sabia uma coisa ou outra que eles não sabiam, aí ouviram.


Tenho uma vida razoavelmente organizada. Para mantê-la assim, tenho a casa também em boa ordem.

Pois bem. Essas pessoas a quem me refiro, tiraram as coisas do lugar e não as colocaram de volta. Louça suja ficou por toda parte, livros não voltaram para a estante, e as cadeiras e objetos se espalharam.

Minhas coisas pessoais, que moram onde moram por uma razão, por obviamente me serem convenientes assim dispostas, foram criticadas em forma de mudança liminar para outros arranjos, que pareceram melhores a esses eventuais visitantes. Não me refiro às coisas tangíveis apenas, isso incluiu também meu universo virtual, os computadores, por exemplo, que por um bom motivo chamam-se pessoais.

Isso é simplesmente má educação. Pouco há que se fazer a respeito, exceto, é claro, não mais recebê-las, que é a minha escolha.

Com a inevitável solidão decorrente.

Meu pai foi perdendo os amigos durante a vida até ficar sem nenhum.

Talvez seja assim com todos nós.

Como disse, andei enfrentando alguns obstáculos na vida recentemente.

Notei ainda uma grande falta de respeito.

Neste novo mundo que estranho e que me estranha, não houve solidariedade. Houve opiniões.

Não tive direito a dor, ao sentimento de abandono, a solidão ou a tristeza.

Foi tudo considerado depressão, autocomiseração, baixa auto-estima e sei lá mais o que. Você deveria ter feito isso ou aquilo. Ou por outra, se não tivesse feito isso ou aquilo outro...

Pô, mas você também...!

Acabaram com o samba e aboliram o lamento, a dor de cotovelo e as perdas foram postas fora-da-lei, o coração partido ou a sensação de abandono já não mais dão canção ou poesia.

Não existem mais as dores humanas. Restaram somente as patologias e os diagnósticos da moda.

Lexotaram os sentimentos.


Mas exagero talvez, ou assim espero.

Um sapateiro de quem sou cliente às vezes, em um encontro casual, teve o bom gosto de me ouvir sem interromper e dizer apenas: sei como é, Serjão. É duro mesmo. Já sofri assim. Mas a gente sai dessa. Existe o dia de amanhã. Mas você vai ter que enfrentar essa sozinho, meu velho. Força aí!

A simpatia e a solidariedade que eu queria e precisava.

Sou do tempo em que amigos fechavam uns com os outros.

Tendo ou não razão.

Por amizade e parceria, por respeito ao momento que se atravessava.

Para ajudar uns aos outros a passar por um mau bocado.


E ainda existiam bons modos.

Mas solidariedade e simpatia quem me deu foi o sapateiro.

Sou capaz de apostar que sabe se comportar em casa alheia.

E me fez um bem danado.

Prova rara de que ainda restou lugar para os sentimentos.

Que não morreu de vez a poesia e não foi expatriada a canção; e a tristeza produtiva, o companheirismo, a melancolia, a empatia, a solidão e os outros humanos sentires ainda podem se manifestar.

É... andei enfrentando alguns obstáculos na vida recentemente e essas circunstâncias aí em cima, pra o mal e para o bem, deram uma parte do tom.

Mas que reclamão, dirão por certo no entanto, mas que texto mais autocomiserativo!

Taca Diazepan no bicho!

Pois é...


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