14.1.11

 

Samba do Suicídio
Paulo Emílio Vanzolini





Que eu andei mal não é segredo
Duro como um rochedo
E jogando sem sorte
Poeta de morte no esporte
E no amor sempre mal sucedido
Um dia abatido pegando jornal
Pra me servir de colchão
Ao estendê-lo no chão
Li uma notícia que confirmou a minha opinião
Estava dura e nana 18 suicídios naquela semana
Com a notícia assim lida
Encontrei a saída
Do problema e da vida
Sem perda de um minuto
Subi no viaduto
E atirei-me no espaço
Meu D-us mas que fracasso
Eu estava tão consumido
Que um ventinho distraído
Que estava a soprar
Foi me levando pelo ar
Pra me largar num fio
No alto de santana
Voltei a pé para a cidade
O que levou uma semana
Voltei ao problema
Por outro sistema
E tomei formicida
E tive a maior surpresa de minha vida
Descobrindo assim
Que o que andavam servindo
Aqui no botequim
Não era tatuzinho
Chá de briga
Era o tatu mesmo
O fazedor de orse de formiga
Me deu um frio na barriga
E um calor no duodeno
Aí fiz a pele do galego
Que é pra largar mão de veneno
Penso então que o que mais me convém
É ficar embaixo do trem
Que assim é certo eu entrar bem
Sem pensar mais
Eu corri para o Brás
E joguei a carcaça embaixo de
Maria fumaça de 28 vagões
E nestas condições
O resultado foi fatal
Vejam a notícia no jornal
Pavoroso descarrilhamento na central
Deu tanto morto e estropiado
Que eu fiquei meio chateado
Procuro então um padre confessor
Que me aconselhou
Moço não seja tolo
E meta um tiro no miolo
Mas bom senhor pois não deu senhor
Eu tenho corpo fechado
Na tenda paz zulu
Dô ricochete em bala
E a durindana resvala no meu peito nu
Por esse lado eu não dou chance pra urubu
Nem vou morar lá no caju

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