18.2.11

 

Cruzamento
Sergio Pinheiro Lopes



Eu e as esquinas.
Estava passando por uma aqui no meu bairro, quando me dei conta da cena:
Uma senhora, já de certa idade, meio gorda, subia a rua em direção à faixa de pedestres no cruzamento. Parei para assistir o desenrolar da história.
Esse cruzamento em especial está naquela fase pré-semáforo. Explico. Já tem faixas de pedestres nas quatro travessias possíveis e já é difícil de distinguir qual das duas ruas, ambas de mão única, é a preferencial. Sendo assim, a maioria dos carros diminui a velocidade antes de passar por ele, embora o trânsito seja intenso.
Mas voltemos à senhora.
Ela chegou à faixa e principiou a atravessá-la com imensa dificuldade de locomoção. Usava uma bengala e movia-se bem devagar.
Nisto, dois alegres cachorros, ambos jovens, com coleira e bem tratados, começaram a atravessar a rua na direção inversa a da senhora e, claro, sem respeitar completamente a faixa. Atravessaram na diagonal.
Pois bem.
A senhora parou de repente e ficou nitidamente preocupada que algo pudesse acontecer aos cães. Parou e os observou atravessar até que estivessem seguros do outro lado. O mais surpreendente para mim foi que ela evidentemente não se preocupou consigo. Apenas parou e observou. Não olhou para ver se vinha carro rua abaixo em sua direção ou se alguém iria virar a esquina de repente.
Depois continuou, laboriosamente, sua caminhada. Eventualmente chegou a um carro e, vagarosamente, nele entrou. Primeiro colocou a bengala no banco detrás, apoiou-se na porta e no banco para conseguir sentar-se e, finalmente, botou as pernas para dentro. Minutos inteiros se passaram até que ligasse o carro e começasse a manobrar para sair da vaga.
Ela manobrava o carro como se nunca a houvessem ensinado a sair de uma vaga entre dois veículos antes. Isto é, virava as rodas em direção à rua, avançava até praticamente tocar no carro da frente, virava a direção completamente para o outro lado e aí, ao invés de dar ré, como seria lógico, não fazia nada. Esperava um pouquinho, virava a direção completamente de novo e só então dava ré.
Olhei a manobra com curiosidade, pois imaginei que daquele jeito não sairia nunca da vaga, pois só ia para frente e para trás sem mudar a posição inicial do carro.
Engano meu.
Depois de incontáveis manobras destas, finalmente, acredite, o carro saiu da vaga. E assim que saiu foi-se embora dirigindo lampeira, com uma destreza na direção completamente oposta a sua dificuldade em andar.
O cuidado com a segurança dos cachorros versus o descuido com si mesma. A extrema dificuldade de locomoção pedestre e a baliza ilógica versus a habilidade e desembaraço na direção.
Para mim o ser humano é sempre uma surpresa.
É só uma questão de prestar atenção.




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