23.3.11

 

Carta para o Daniel aos 18
Sergio Pinheiro Lopes


Exatos doze anos se passaram desde que escrevi esta carta.
A promessa que Daniel representa em minha vida, foi realizada muitas e muitas vezes.
Uma benção de D-us para todos os que o cercam e, especialmente, para mim.
Parabéns, filhote!


Meu filho,

Hoje você completa 18 anos.
O seu presente já está escolhido: objeto formal, cuja existência no mundo real é palpável e visível. E é muito importante na medida que corporifica uma independência da alma e do corpo, um crescer, uma maioridade: o direito e o privilégio efetivo de ir e vir, sem prestar contas a quem quer que seja. Ou pelo menos é o que a gente sente neste momento, se bem me lembro.
Por outro lado, para você, carrega também o aspecto de circunstância afortunada, de haver nascido em tal lugar e em tal época, filho de quem é, cuidado e querido, observado e estimulado, favorecido como foi e é por pais tolerantes e amorosos.
Nada disso deve nublar as conquistas que são fruto da sua inteligência e do seu humanismo, da sua solidariedade e da sua legítima preocupação com o mundo que te cerca. Essas conquistas são suas. Ninguém as deu para você.
Mas quero falar do presente impalpável e intangível.
É muito difícil escrever uma carta dessas sem ser sentimental. Isto para uma pessoa comum. Para mim então, é impossível, sentimental e piegas até a medula que sou, apesar dos esforços patéticos que faço para parecer racional e lógico.
Preciso dizer a você da inquietante experiência de ser filho do próprio filho.
Explico:
Acredito que esta é a grande surpresa que a vida reserva aos imortais arrogantes que somos ao decidir colocar alguém neste mundo.
Imaginava que ia conduzir e ensinar, ser o benfeitor que ilustra e esclarece os mistérios do mundo para ouvidos atentos e respeitosos.
Qual o que!
Manhoso, aquele bebê com cara de lua e o sorriso mais largo e generoso do mundo, tratou de me colocar no meu devido lugar desde o primeiro instante. Desde as quinze para as onze da manhã daquela segunda-feira, 23 de março, há dezoito anos atrás.
A partir daí, e bem aos poucos, cotidianamente na verdade, a vida e a convivência com você foi me ensinando a ser humilde, a não ter certezas, a aceitar o outro. O “outro” no caso é você. Você é o outro absoluto. Pessoa específica com peculiaridades e pessoalidades que tive e tenho que aprender todos os dias. Isto em meio aos parentes e pessoas variadas que se entretém em explicar que meu filho é a minha cara, que puxou isso ou aquilo de mim ou do meu pai ou do meu avô. Por outro lado, sou o pai, portanto espera-se que saiba tudo e tenha todas as respostas: desde quanto custa uma Ferrari em Taiwan até a hora do encanador no Mississipi, quem inventou o Raio-X ou, afinal, quem era quem na Segunda Grande Guerra. E eu lá. Sabendo e não podendo dizer que não é bem assim. Que aquele que é a minha cara é, antes de tudo, a própria cara, que vai se revelando a cada dia, a cada mês, a cada ano e a cada aniversário, para si e para mim.
E nesta dança dos dias e dos anos lá se foram todas as certezas, e eu que comecei aquele arrogante guia que tudo sabia e que iria conduzir o filho pelos mil caminhos e atalhos deste confuso e misterioso fim de século, me descubro maravilhado e surpreendido do jeito que deveria ter sido desde o primeiro minuto: apenas um aprendiz.
E é aí que sou filho do meu filho. Muito mais do que ensinar, aprendi. Aprendi com as minhas deficiências e arrogâncias, aprendi a ser humilde e aprendi a não ter razão, aprendi que ouvir é tão importante quanto ser ouvido, aprendi que respeitar é a única forma de ser respeitado, aprendi também que a paciência é a arte da paz. Enfim, muito do que aprendi na vida, aprendi sendo seu pai, aprendi com você, meu filho.
Hoje, formal e juridicamente, é o dia da sua maioridade. É também o fim da minha tutela. A partir de hoje você é um adulto, responsável por suas palavras e atos. Você sabe que a importância de ser reto e ter caráter, de ter compaixão pelo seres humanos, de se comportar eticamente e de retribuir ao mundo pelo muito que ele te deu, não está na opinião que os outros tenham ou deixem de ter a seu respeito, e sim na opinião que você tem a seu próprio respeito. E sempre que tiver que tomar uma decisão ou fazer uma escolha que te pareça difícil, pergunte-se sempre qual o caminho que tem coração: a resposta te virá clara e límpida. Seja o que for que resulte, tendo escolhido o caminho do coração, de alguma forma você terá acertado.
Existia uma piada quando eu era criança que começava assim:
Fritz, hoje você faz 18 anos. Você já comeu muitos bolos e doces...
A idéia era a de contar um segredo que só poderia ser revelado na maioridade. Na piada o segredo é que Papai Noel não existe. A piada é falsa. Papai Noel existe sim, pois ele representa o mistério do mundo te dando presentes. E que presente misterioso da vida é a incrível aventura de ter um filho e como num espelho ser filho dele ao mesmo tempo. Ensinando a aprender e aprender ensinando.
Parabéns e que Deus, que é o pai de todos nós, te abençoe.

Papai.



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