7.3.11

 

Viagens
Sergio Pinheiro Lopes



Era o início do Plano Real e, milagre, a moeda brasileira valia o mesmo que um dólar. Depois vimos que aquilo simplesmente não era possível, mas naqueles anos muita gente aproveitou a maré para viajar. Eu entre eles.
Pois então, estava eu lendo o NY Times, seção de livros, espichado em uma cama de hotel, quando uma resenha me chamou a atenção. Era sobre um livro policial de humor. Sempre gostei de livro policial com humor e já tinha lido todos do Donald E. Westlake, por exemplo. Esse era de um autor de quem eu nunca ouvira falar: Lawrence Block. Levantei, dirigi-me imediatamente a Barnes & Noble e comprei o livro. Como na estante havia outros do mesmo autor, adquiri mais uns tantos para ler quando voltasse para casa.
Gostei muito do livro, mas mais ainda da série que o autor escreveu com um detetive existencialista, chamado Mathew Scudder. As aventuras do Scudder sempre se passam em Nova York e são interessantíssimas.
Fiquei pensando na cidade e do quanto não a conhecia. Na viagem seguinte, resolvi ver se os lugares freqüentados pelo detetive na cidade eram verdadeiros ou fictícios.
Todos eram reais. Por conta disso, fiquei conhecendo uma Nova York que não experimentaria de outra forma: desde o Armstrong, um pub e restaurante irlandês, com um excelente irish stew (um cozido feito de carneiro, batatas, cebolas e salsa, geralmente com as partes menos nobres do animal, bem à moda da nossa feijoada); até uma reunião dos Alcoólicos Anônimos no porão da igreja St. Paul, na rua Cinqüenta e Oito, onde pude participar e ouvir as histórias de vida não tão glamurosas, mas cheias de dificuldades de muitos habitantes da cidade. A missa dos açougueiros, às seis da manhã, na rua Quatorze, quando eles comparecem com seus aventais brancos ainda manchados de sangue e depois voltam ao trabalho e uma igreja linda, na rua Vinte e Três, onde assisti Murder in the Cathedral, do T.S. Eliot.
Foi uma viagem deliciosa. Quando voltei para casa, resolvi escrever uma carta ao autor dizendo do passeio que tinha feito e da Nova York improvável que tinha conhecido graças a seus livros. Mandei a missiva aos cuidados de uma livraria, chamada Mystery Bookshop, que sabia que ele freqüentava.
Para minha surpresa, o autor respondeu muito gentil e simpático, comentando os lugares que eu tinha ido e sugerindo uns tantos outros que ainda não apareceram em seus livros. Escritores são pessoas muito mais acessíveis do que nós – eu com certeza – leitores, imaginamos.
Por coincidência, logo a seguir, ele teve seu primeiro livro em português lançado no Brasil. A Folha de S. Paulo fez uma resenha. Achei de mandar a tradução para ele e, depois, mandei também uma crítica altamente elogiosa ao livro, escrita pelo Ivan Lessa na Veja.
Já estávamos na base do e-mail para lá e para cá. Agradeceu-me muito e convidou-me para uma inauguração em Nova York, em julho do ano seguinte.
Atrás da Biblioteca Pública dessa cidade, na 5a avenida, há um parque, chamado Bryant Park, que era ocupado por traficantes de drogas e usuários. Para recuperá-lo, a direção do parque resolveu ocupá-lo com outras atividades. Decidiu oferecer bancos com o nome de personagens de autores nova-iorquinos, além de promover récitas poéticas, música, leituras de peças e shows.
Era para a inauguração do banco com o nome de seu personagem Mathew Scudder que Lawrence Block estava me convidando. Fiz meus planos e resolvi comparecer.
Essa outra viagem foi um pouco mais estranha. Poucos dias antes de embarcar me descobri diabético. Cheguei na cidade uns quarenta dias antes da inauguração do banco e aluguei um carro. Fui na vaga direção do Canadá, parando onde achava bonito ou interessante. O museu do Norman Rockwell, em Stockbridge, por exemplo, dentro do rancho em que morava e onde pude visitar seu estúdio de pintura exatamente como o deixou. O problema que tornou a viagem estranha foi que meu médico dera-me um remédio para baixar a glicose, sem saber que eu ia começar um regime de dieta e exercícios para emagrecer. Andava a pé por umas duas horas ou mais, todas as manhãs ao alvorecer. Aproveitei-me das inúmeras ofertas de delícias sem açúcar dos Estados Unidos. Não deu outra: passei a ter hipoglicemia todos os dias. Primeiro dava uma tontura, depois suores frios e uma sensação de que ia desmaiar. Muitas vezes estava dirigindo quando isso acontecia. Precisava parar no acostamento e comer açúcar imediatamente. Depois de uns tantos dias dessa tortura, parei em uma cidadezinha, procurei uma livraria e comprei três ou quatro livros sobre diabetes tipo II. Enfurnei-me em um hotel até lê-los todos. Daí para frente, as coisas melhoraram muito. Suspendi o remédio e passei a controlar o diabetes com dieta e exercícios – coisa que faço até hoje. A viagem ficou ótima.
Depois de um longo passeio pela Nova Inglaterra e o Canadá, com direito a Niagara Falls e Ville de Québec – com o belíssimo Châteu Frontenac, um dos hotéis mais charmosos do mundo, cartão postal dessa beleza de cidadezinha –, voltei lentamente para Nova York, serpenteando por Vermont e pelo Maine e suas lagostas, para meu encontro no parque, com Lawrence Block.
Embora esses encontros com escritores que admiro sempre me deixem tímido, Lawrence Block foi muito afável e cordial e me presenteou com livros seus, com direito a dedicatória e tudo. Conversou um pouco comigo enquanto a multidão de presentes aguardava. Foi tudo muito bom no geral. Tenho uma foto, tirada no dia seguinte, sentado no banco do Mathew Scudder.
Hoje me é muito mais difícil visitar a América do Norte. Nossa moeda foi trazida de volta à realidade, as torres gêmeas foram derrubadas e forças retrógradas estão no poder por lá. Nunca mais voltei e tenho a impressão de que, em um certo sentido, nunca mais vou poder voltar. Os lugares e as pessoas já não existem mais como eram, a Terra deu várias voltas ao redor do sol e o que passou, passou, não volta mais.

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