1.6.11

 

Como Envelhecer
Bertrand Russel



Psicologicamente existem dois perigos a serem evitados na velhice. Um deles é uma absorção indevida no passado. Não é bom viver de memórias, com saudades dos bons tempos, ou com tristeza pelos amigos que já foram. Os pensamentos devem estar dirigidos ao futuro, para coisas a respeito das quais ainda há algo a fazer. Isso não é sempre fácil; nosso passado é um peso crescente. É fácil achar que nossas emoções eram mais vívidas do que agora, e nossa mente mais aguda. Se isto é verdade, deve ser esquecido, e se é esquecido provavelmente não é verdade.
A outra coisa a evitar é se pendurar em demasia na juventude na esperança de buscar vigor na sua vitalidade. Quando seus filhos estão crescidos eles querem viver a própria vida, e se você continuar a estar tão interessado neles como estava quando eram mais jovens, você provavelmente vai se tornar um peso para eles, a menos que sejam por demais insensíveis. Não digo que não devemos ter interesse neles, mas nosso interesse deve ser contemplativo e, se possível, filantrópico, mas não emocional demais. Os animais perdem interesse pelos seus filhotes assim que eles conseguem cuidar de si mesmos, mas os humanos, devido a duração da infância acham isso difícil.
Acho que uma velhice bem sucedida é mais fácil para aqueles que tem fortes interesses impessoais que envolvem atividades apropriadas. É nessa esfera que uma longa experiência é realmente frutífera, e é nessa esfera que a sabedoria nascida da experiência pode ser exercida sem ser opressiva. É inútil dizer a filhos crescidos para que não cometam erros, tanto porque eles não vão acreditar em você, e porque os erros são uma parte essencial da educação. Mas se você é um daqueles que é incapaz de interesses impessoais, você pode descobrir que sua vida ficará vazia a menos que se dedique a seus filhos e netos. Nesse caso você precisa perceber que embora você possa prestar a eles serviços materiais, tais como dar uma mesada ou tricotar pulôveres, você não pode esperar que eles gostem da sua companhia.
Alguns velhos são oprimidos pelo medo da morte. Nos jovens há uma justificativa para esse sentimento. Jovens que tem razão para temer que vão ser mortos numa batalha podem justificadamente sentir-se amargos com o pensamento de que foram roubados das melhores coisas que a vida tem a oferecer. Mas num velho que conheceu as alegrias e tristezas humanas, e realizou o trabalho que estava nele fazer, o medo da morte é um tanto abjeto e ignóbil. A melhor maneira de vencê-lo - ao menos assim parece a mim - é tornar seus interesses gradualmente mais amplos e mais impessoais, até que pouco a pouco as paredes do ego recuem, e sua vida se torne cada vez mais parte da vida universal.
Uma existência humana individual deveria ser como um rio - pequeno a princípio, estreitamente contido dentro das margens, e correndo apaixonadamente pelas pedras e cachoeiras. Gradualmente o rio alarga-se, as margens se afastam, as águas correm mais tranquilas, e no fim, sem nenhuma quebra visível, ele se funde ao mar, e sem dor perde sua existência individual. O homem que, em sua velhice, puder ver sua vida desta maneira, não sofrerá com o medo da morte, já que as coisas com as quais ele se importa continuarão. E se, com a diminuição da vitalidade, o cansaço aumentar, a idéia de descanso não será mal vinda. Eu gostaria de morrer ainda trabalhando, sabendo que outros continuarão o que eu não poderei mais fazer e contente com o pensamento de que o que foi possível foi feito.

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