17.8.11

 

Reflexões Grisalhas
Sergio Pinheiro Lopes


Tudo é passageiro, menos o cobrador e o motorneiro. Ditado do meu tempo de criança, quando ainda havia bondes em São Paulo.
Perde-se a juventude e o viço, perdem-se amigos, perde-se a saúde, perde-se dinheiro, perde-se tempo, perdem-se as memórias e alguns a própria memória de si e, ao fim de tantas e inumeráveis perdas, perde-se a própria vida.
Pois o assunto da vida são mesmo as perdas. Lidar com elas. Aceitá-las.
E a lembrança que eventualmente fica dura uma ou duas gerações e olhe lá. Pergunte a qualquer um se de seus oito bisavôs e bisavós sabe ao menos o primeiro nome. Poucos são os que lembram mais de dois ou três. Essa a nossa duração neste mundo e na memória da própria família, para não falar dos outros de fora do círculo das relações sanguíneas.
Tudo bem, a vida pertence aos vivos. Isso todos sabem.
Parece que ao longo da vida, quase sem perceber, vamos subindo uma colina e chegados ao topo, nos encontramos sozinhos, contemplando um passado feito de retalhos e pedaços de lembranças dispersas no tempo.
Guardiães de uma história que só a nós mesmos interessa. E ainda assim, não muito. Há um sentimento de distanciamento do que vivemos, fizemos e deixamos de fazer.
É importante, em não tendo sido supremos canalhas, é claro, ao menos não cultivar culpas. Além de inútil pode tornar mais sofrido o fim da jornada.
Quem me lê pode achar que estou velhinho e olhando para o passado. Longe disso. Não estou ainda no topo da colina. Apenas observo os que lá já estão e com quem convivo, e me preparo para quando chegar a minha vez.
Mas já é possível assistir ao processo das perdas. As inexoráveis e as que talvez fossem evitáveis. Não há como saber.
Desde o barbeiro que, inadvertidamente, mostra o corte e deixa-o vislumbrar a calva que avança no topo da cabeça, os efeitos da gravidade, o nariz e as orelhas que crescem com cada vez mais pelos; até as perdas mais doídas, daqueles a quem amamos.
Há também os tratamentos, como o ‘senhor’ e o inevitável ‘tio’ ou ‘tiozinho’ (vem aí o 'vovô'), com que os jovens imortais nos brindam, como se sinal de respeito fossem.
Idade e experiência não contam em país de jovens. Que aqui não é o Japão ou a China. Estamos mais para os esquimós, que põem os velhos para fora do iglu, para que morram de frio e inanição. Depois de certa idade, não há emprego ou ocupação para os velhos, salvo trabalho voluntário ou jogar dominó na pracinha.
Faz pouco tempo conheci um senhor de oitenta anos, médico de profissão que ficou praticamente cego. Outro dia o vi na padaria, e fui sentar-me ao seu lado. Contou-me que pensava em se matar, que já tinha juntado os remédios próprios para uma morte sem sofrimento. Ponderei que o suicídio, embora esteja na reflexão de todos os seres humanos e possa ser um alívio, pode não sê-lo também, já que ninguém sabe o que nos aguarda do outro lado. Além disso, pune os que ficam deixando uma inevitável sensação de culpa nos que nos rodeiam. Ele virou o rosto para mim, não me vendo naturalmente, pôs a mão no bolso, tirou umas notas e pediu que dissesse a ele quais eram de que valor. Eu disse. Ele levantou-se, pagou e foi-se embora. Não o vi mais e estou preocupado com ele, embora não o conheça bem e não saiba onde mora. Ele que a tantos tratou e curou, não encontra propósito ou alívio para si mesmo.
Não estou velho ainda, propriamente, é verdade,
mas minha alma já anda solitária e grisalha.


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