2.10.11

 

Retratos Escritos
Sergio Pinheiro Lopes



Tenho um colete de pescador que comprei em uma viagem a Portugal. Possui exatos vinte e sete bolsos, vários lugares para iscas, pendurar anzóis e coisas que nem imagino.
Comprei por vinte e cinco dólares porque me pareceu ideal para quem está viajando. Como se sabe, viajar é andar a pé. E muito. Esse colete pareceu-me uma solução bestial, como se diria lá na terrinha. Nos seus bolsos pude colocar o jornal do dia, carteira, passaporte, mapas, folhetos, livros, cigarro, isqueiro, máquina fotográfica, óculos de leitura e escuros e até mesmo uma malha levinha, caso esfriasse durante o dia.
Perfeito. Sem mangas, naturalmente, e furadinho atrás para ventilar, permitiu-me carregar todo o meu kit de viagem, com o peso distribuído pelo corpo uniformemente e, ao mesmo tempo, ficar com as mãos e os braços livres para passear, fuçar em livrarias, sentar em um café de beira de calçada e, com sorte, não me parecer em demasiado com um turista.
Tudo isso para dizer que, uma vez findo o passeio, o colete permaneceu como uma das minhas melhores aquisições de viagem.
Às vezes, quando o clima está ameno, nem frio e nem calor – o que é uma raridade em São Paulo – acho de usá-lo por aqui mesmo. É bom para aqueles sábados ou domingos em que se sai para garimpar livrarias e sebos, comer qualquer coisinha fora, xeretar em uma das feiras ao ar livre, que são, aliás, uma das graças de São Paulo atualmente, e eventualmente, até terminar com um cafezinho entre amigos em algum lugar no fim da tarde. Programa para o dia inteiro, portanto, em que o tal do colete pode vir bem a calhar.
Pois bem. Outro dia, estava eu todo pimpão com o referido, acho que em um café depois do comer qualquer coisinha fora, quando me perguntaram: “Você é fotógrafo?”
Respondi que não. Mas nunca tinha me ocorrido que ele é em tudo semelhante a colete de fotógrafo. Bateu-me l'esprit de l’escalier, e achei que deveria ter dito que sim, que era, mas um tipo diferente de fotógrafo, já que minhas fotos são feitas com palavras. Mas fotografo o que vejo. Pareceu-me justo descrever esses curtos textos que produzo como retratos em branco e preto, isto é, imagens reveladas pelo texto, mostradas não em cromo, mas em papel e tinta. Pinturas, dirão alguns. Fotografias, digo eu, pois as crônicas, como as fotos, comportam pontos de vista peculiares, ângulos incomuns e permitem que se enfatizem detalhes que talvez passem despercebidos por outras pessoas. Mas não são, como as pinturas, uma interpretação do autor. Não são ficção. Estão mais para micro-autobiografias do que para qualquer outra coisa. E mais: senti que tinha o direito usar a peça de vestuário como se fosse mesmo um fotógrafo, mas, diferentemente deste, não preciso de flash, filme ou câmera para tirar um instantâneo da realidade do bolso do colete.
Afinal, sou cronista e tiro retratos por escrito.

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