11.2.12

 

O Candelabro
Sergio Pinheiro Lopes



É um pequeno candelabro e mora pendurado em uma coluna ao lado da mesa de trabalho. É somente para duas velas. Serve, declaradamente, para tirar o cheiro de cigarros.

Mas já morou em outros lugares antes. Ao lado da cama de sua dona, por exemplo. E empresta uma atmosfera delicada e singela, parisiense mesmo, à sala.

Olhando com atenção via-se que sua armação cheia de volteios já havia passado por poucas e boas. Estava com as hastes meio tortinhas, deixando as velas em alturas diferentes, e dava para ver que já tinha sido remendado com durepoxi depois de algum acidente.

Mas servia bem às suas funções. Tirar o cheiro de tabaco e iluminar de charme o ambiente.

Mas um dia desses, um gesto abrupto o derrubou no chão e ele quebrou de vez. Uma das hastes partiu-se e ali, no chão, parecia ter chegado ao fim de seus dias.

Será que havia conserto? De que material é feito? Ferro, cobre, latão, antimônio?

Será possível soldá-lo? E quem é que faz soldas nessa cidade. Loja de escapamentos de automóveis, oficinas mecânicas, quem? Mas esses soldam coisas brutas, objetos grandes e toscos. Quem será que lida com objetos sensíveis, que respeite as delicadezas de um modesto candelabro com tantas memórias de infâncias e reuniões, de amigos conversando à noite, de sonhos velados em outros tempos e outros ambientes.

Mas pergunta daqui e pergunta dali, e vem a improvável indicação: procure seu Rubens.

Ele trabalha nos fundos de uma borracharia, lá pros lados da Vila Romana, e faz soldas improváveis, de ferro, naturalmente, mas também de prata, cobre e, pasmem, antimônio, que muitas vezes ouvi, não pode ser soldado.

Seu Rubens é um homem grandalhão vestido com um macacão sujo de graxa em meio aos pneus e macacos, chaves de roda, compressor e a inescapável banheira cheia de água. Usa um par de óculos redondos, tipo John Lennon, e tem um ar de menino quando olha o candelabro quebrado. Vai até uma mesa, meio escondida nos fundos da oficina, passa cuidadosamente uma das hastes no esmeril e diz que o candelabro é feito de cobre fundido.

Sim, tem jeito sim. Deixe aqui e volte amanhã.

O candelabro ficou perfeito. Restaurado e polido, livre do feio durepoxi, parecia mesmo feliz com suas hastes e volteios recuperados.

Tão feliz quanto seu Rubens, que o devolveu com seu ar de menino e um brilho matreiro de satisfação por detrás dos óculos.

Não há nenhuma placa, nenhum sinal que informe que ali, naquela borracharia, trabalhe um artista, um restaurador de coisas frágeis, um homem amável e gentil, com a competência que só o amor ao que se faz confere.

Só se chega ali por meio de indicação.

Seu Rubens é um segredo paulistano.


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